Pagode dos anos 90 é redimensionado em série documental como movimento transformador do samba e da sociedade

  • 18/07/2026
(Foto: Reprodução)
Cantor revelado como vocalista do grupo Negritude Junior, Netinho de Paula dá ótimos depoimentos na série disponível no Globoplay Reprodução / Vídeo ♫ CRÍTICA DE SÉRIE DOCUMENTAL Título: Anos 90 – A explosão do pagode Direção: Emílio Domingos e Rafael Boucinha Roteiro: Raul Perez Cotação: ★ ★ ★ ★ ★ ♬ “Quando o pagode começou a fazer muito sucesso nos anos 90, isso me ajudou a me entender como preto, a ter mais orgulho de ser preto. O pagode dos anos 90 vai muito além da música. É um movimento transformador da sociedade”, analisa Thiaguinho em depoimento ouvido quase ao fim do terceiro e último episódio da série documental “Anos 90 – A explosão do pagode”, já disponível na íntegra no Globoplay após ser exibida pela TV Globo nas três últimas quartas-feiras. A fala de Thiaguinho, cantor projetado nacionalmente em 2003 como vocalista do grupo Exaltasamba, dá o tom reflexivo do documentário dirigido por Emílio Domingos e Rafael Boucinha. A série examina e redimensiona o pagode da década de 1990 como um movimento que transformou o samba e, como diz Thiaguinho, a própria sociedade. Os protagonistas do gênero debatem a própria trajetória à luz da perspectiva do tempo. Ainda no terceiro episódio, “O show tem que continuar”, Netinho de Paula – entrevistado que se destaca pelas falas capazes de sintetizar fatos e momentos – se emociona ao ver uma apresentação do Negritude Junior, grupo que o revelou nos anos 1990, no programa “Domingão do Faustão” (TV Globo), e reflete sobre a própria trajetória com viés crítico. “Que tempo bom! Como foi rápido... A minha saída do Negritude Junior para seguir carreira solo não era para ter acontecido. Era para a gente ter continuado juntos até hoje. Mas eles acharam que eu estava muito maior do que o grupo e fui convidado a me retirar”, lembra Netinho, ressaltando que todo o trabalho do Negritude Junior também passa pela questão identitária, inclusive pelo fato de o grupo ter absorvido códigos da black music norte-americana. Chrigor admite na série que sofreu quando saiu do Exaltasamba em 2002 e foi substituído por Thiaguinho Reprodução / Vídeo De alta qualidade, os depoimentos valorizam o documentário e são a principal matéria-prima da série, cujo roteiro – assinado por Raul Perez – entremeia as falas dos cantores com imagens de arquivo (geralmente takes de aparições dos grupos em programas de auditório e de um ou outro show desses grupos em início de carreira) e com números musicais em que um artista revisita o repertório de outro. Os depoimentos soam sinceros. Chrigor, por exemplo, assume que sentiu o baque quando saiu do Exaltasamba em 2002 e foi substituído por Thiaguinho, tendo transformado o ciúme inicial do colega em amizade. “Eu era um cara cheio de sucesso (de repente) sem sucesso algum. Para a minha vida, foi bom porque eu aprendi a viver, mas sofri. O sucesso não tem compromisso com ninguém”, reflete Chrigor. O documentário se agiganta por colocar em pauta temas sociais que vieram juntamente com a explosão do pagode. Como ressaltam vários entrevistados, os grupos eram formados majoritariamente por jovens pretos egressos das periferias, geralmente da cidade de São Paulo (SP), epicentro do pagode, ainda que o grupo Só pra Contrariar seja mineiro de Uberlândia (MG). A explosão do pagode possibilitou a mobilidade social desses jovens e das respectivas famílias. A supremacia masculina no início do movimento também entra em pauta. Se somente a cantora Eliana de Lima quebrava essa hegemonia nos anos 1990, Ludmilla atualmente arrasta multidões para os shows do projeto de pagode “Numanice”. A entrevista de Ludmilla contribui para entender as transformações do gênero ao longo de trinta e seis anos, tomando-se como ponto de partida o sucesso do pioneiro grupo Raça Negra em 1990. Thiaguinho revela que a explosão do pagode nos anos 1990 o ajudou se entender como um homem negro Reprodução / Vídeo A propósito, a ausência de Luiz Carlos entre os entrevistados é sentida, mas não a ponto de tirar pontos da série documental. É que o Raça Negra preparou o terreno para a formação do movimento, cuja gênese é o mote do roteiro do primeiro episódio, “Da quebrada pro mundo”. É quando, no episódio inicial, o Fundo de Quintal – grupo que revolucionou o modo de tocar samba na segunda metade dos anos 1970, mas que perdeu impulso no mercado justamente com a explosão do pagode da década de 1990 – é paradoxalmente apontado como a principal referência inicial para as estrelas do pagode 90. “O pagode anos 90 é a juventude dizendo: 'agora vamos fazer o samba do nosso jeito' ”, sintetiza Netinho de Paula. E aqueles jovens fizeram, com a ajuda de nomes como Pelé Problema e Luizão (da equipe Chic Show), entre outros produtores e empresários que abriram as primeiras portas para os grupos que buscavam um lugar no mercado no rastro da explosão do Raça Negra. A conexão do pagode 90 com o movimento black dos bailes paulistanos é um ponto de luz que se ilumina com o documentário de Emílio Domingos e Rafael Boucinha. Se a luz própria de Belo é enfatizada por vários depoentes, a força de Thiaguinho com “Tardezinha” – a roda de samba que acabou em arenas e estádios tamanho o gigantismo alcançado pelo projeto – também é ressaltada ao longo da série. Ludmilla é retratada na série como uma artista que quebrou a hegemonia masculina do pagode com o projeto 'Numanice' Reprodução / Vídeo Tema do segundo episódio, “O estouro”, a explosão propriamente dita do pagode é contada neste episódio em que fica nítida a ascensão social dos protagonistas do gênero. Com o dinheiro, vieram a ostentação e as rivalidades, lembradas por Netinho e Salgadinho (cantor projetado no grupo Katinguelê), entre outros entrevistados. Foi quando o sucesso e a riqueza fizeram por vezes a vida ser vivida em piloto automático, como recorda Wilson Prateado, produtor fundamental do pagode. Só que o sucesso midiático passou – até voltar com força nos anos 2020, com o pagode 90 já com status de cult em movimento que gerou turnê milionárias como a que promoveu o reencontro de Belo com o Soweto em 2024 – e a série tem o mérito de cativar o espectador com reflexões sobre um momento que marcou época na história do samba e da sociedade. Imperdível, a série “Anos 90 – A explosão do pagode” se nutre da nostalgia desse “tempo bom”, como qualifica Netinho, mas com foco na realidade, sem atravessar o samba ao refletir sobre a era iniciada com o didididiê do Raça Negra. O carisma especial de Belo é ressaltado por vários entrevistados da série 'Anos 90 – A explosão do pagode', disponível no Globoplay Reprodução / Vídeo

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/07/18/pagode-dos-anos-90-e-redimensionado-em-serie-documental-como-movimento-transformador-do-samba-e-da-sociedade.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Top 10

top1
1. The Cure

OLIVIA RODRIGO

top2
2. Até Quando Esperar

PLEBE RUDE (Ft Hebert Vianna)

top3
3. In The Stars

ROLLING STONES

top4
4. I Feel So Free

MADONNA

top5
5. Liga Pra Mim

CAPITAL INICIAL

top6
6. Free To Love

DURAN DURAN

top7
7. Olhar de Quem Não Presta

DUDA BEAT

top8
8. Nothing Can Come Between Us

SADE

top9
9. Carry The Weight

HALSEY

top10
10. Spooky (sub 12")

NEW ORDER


Anunciantes